:: O Diário Inexistente ::

Sabe aquelas idéias que você nunca escreveu, que ficam rodando na sua cabeça, em estantes imaginárias... histórias que não aconteceram, escritas por pessoas invisíveis em lugares que desconhecidos? Ou então histórias que acontecem de repente, porque de repente é o melhor tempo do mundo, é mágico e matemático, e se bobear você nem percebe e deixa ela passar?

Eu resolvi escrever as minhas aqui...
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:: 2/9/2007 ::

Esse blog já tá qualquer coisa, e eu vou pra lá de Marrakesh...

É, amigos do show do Esporte (entra trilha incidental do pára-pá-pá-pá-papá... com direito a Galvão Bueno anunciando o Show do Esporte que era na Bandeirantes logo depois da mudança do Globo Esporte pra Esporte Espetacular... ou a Hebe descendo a escada toda agudunhada naquele vestido parecendo um churros de lamê... ah, Marcos Valle, tanta coisa boa tua música fez brilhar...), vou viajar.

Nota do editor, Marcos Valle já nos deu outras pérolas, como "Bicicleta" (reconhecida pelo Diário de Campos como um dos hits (?) do verão de 1990), e o brilhante "Tema de Funga-Funga",da Vila Sésamo brasileira...)

Vou passar uma semana em Barcelona, num evento de trabalho, que no ano passado já simbolizou uma subida de nível no meu diploma etílico, apesar de ter que estar na feira todos os santos dias às 9 da manhã, de ter que aguentar reuniões com fornecedores de soluções que você jamais compraria nem que fosse o homem mais rico da Noruega, com um sorriso de orelha a orelha, porque o resto da tua equipe tá na boca do palhaço de tão estropiada da véspera. Um evento que conseguia dar um overflow federal de informação na cabeça, com toda a população de telecomunicações e conteúdo do mundo confinada a uma cidade que, é linda eu sei, mas é do tamanho do Leblon. Resultado: as Ramblas pareciam a Ataúlfo de Paiva, só faltava a Regina Duarte e o Manuel Carlos. Encontrei com mais gente ali da minha própria empresa que no prédio que a gente trabalhava. Fino isso de "pô, legal te encontrar aqui em Barcelona, mas responde meu email, filho da p*"...

Enfim, pretendo não largar o blog. Acho que é uma coisa meio "jovem, ao completar 18 anos, aliste-se!", obrigação civil mesmo. Até porque se coisas me acontecem indo a um restaurante em Brasília, no aeroporto de Confins, nos Zona Suis da vida, imagine em Barcelona, num hotel de um quarto de estrela (porque cabe 1 milhão de pessoas na cidade, e a feira já tem mais de 2,5 milhões de inscritos - ou seja, não tem onde dormir, e os bares fecham 2 da manhã, já tentei isso também!), com o povo indócil pra abraçar o capeta embalado por doses e doses de chupito de melocoton (uma bagaceira de pêssego baratérrima e pior que vodka Roskoff, mas que só por ter esse nome carismático merece ser apreciada sem moderação), e depois ainda por cima ir para...

Marrocos! Dando a seqüência a minha coleção anual de Carnavais em Lugares Inesperados (ano passado foi em Maromba, no anterior Machu Picchu, antes dele na Terra do Fogo, Lençóis Maranhenses e Cambodia), na fuga insana do samba-café-bunda-pelé-carnaval, morando no que durante 10 meses do ano é o epicentro do furacão carioca, e durante janeiro e fevereiro é o mais popularmente conhecido c* do mundo, Ipanema fica insuportável. De calor, de van, de gente, de sol, de praia, odeio essa gente feliz de praia, a pessoa vai pruma areia cheia de verme, mergulha num mar viscoso que nem azeite, volta com um saco do Zona Sul colado na cara que nem o Fantasma da Ópera, fica se agudunhando em meia canga entre outros mil, uma gritaria, criança grossa tossindo areia pra tudo quanto é lado, e o ser humano ainda olha pra cima e acha aquilo uma vida muito boa...

Enfim, vou pra Fez e Marrakesh. Foi difícil abrir mão de Casablanca, porque uma semana só não dava pra três (a gente fala mal de americano que vem pro Brasil e em uma semana vai ao Rio, Parati, Buzios, Salvador, Fortaleza e ainda pega um cruzeiro de 2 dias pelo Solimões, pois brasileiro é igual, ah, eu vou pro Marrocos, quero ir nas três cidades, como se fosse do tamanho de Paquetá.... é longe pra cacete), mas depois que um amigo editor do Lonely Planet (que como guia eu acho meio fubango, vou morrer fiel ao Rough Guide,sem foto e muito texto, mas como website e forum de discussão acho fantástico) me disse que Casablanca é que nem Copacabana, vive de direito autoral, mas de turístico não tem nada, relaxei.

Vou me embaranhar por suuqs (bazares e mercados de rua), vou comer coisa esquisita no espetinho (depois de ter ido parar no hospital na China por ter comido um espetinho de escorpião mal passado, agora sou invencível!), vou pechinchar em francês (a pechinchada dói no começo porque você vê a miséria em que os caras vivem, mas depois vai subindo um calorzinho bom, uma sensação de poder, tipo tirar 6 e 6 num ataque a Dudinka com 3 exércitos e um avião, você abre a caixinha de maldades e não sobra nem um pelo do coitado do vendedor - agora em francês vai ser todo um episódio), vou ter que carregar coisas pequenas para minha amiga pelas vielas da cidade (como tapetes persas, narguilês de um metro e meio, panelas de cobre, enfim, coisas pequenas e jeitosas pra colocar no quarto do berimbau quando a gente voltar...), vou ficar em Riads, que são casas típicas marroquinas (depois de ter me hospedado num hobokan em Hiroshima, um hotel típico feudal cuidado por gueixas, ter tomado banho de baldinho e dormido no chão, com as gueixas entrando sem bater pra tirar coisa, arrumar coisa, acender incenso, e você ali achando tudo um c*, mas é que nem ir à praia de Ipanema, TEM que ser lindo, então você ama), vou voar de Royal Air Maroc, onde o "chicken or pasta?" do serviço de bordo deve ser só coisa light como "carneiro ou bisteca de camelo?" num avião cujo banheiro deve ser certamente desenhado pelo Phillipe Starck, aliás, num país em que não usa papel higiênico, e, o principal, sob ameaça da minha amiga de, se eu não me comportar, ela apontar pra mim no meio da medina e falar "judeu!!!!", e eu ser enterrado numa pracinha até a cintura e ter que sobreviver a 20 minutos de apedrejamento por "professar religião que não a do Alcorão"...é.. panic at the medina...

Tenho um certo pressentimento de que terei histórias pra contar...

:: Inocente 8:50 AM [+] ::
...

Fala que eu te escuto...


:: 2/6/2007 ::
Post sem graça, mas absolutamente real. Esta semana me aconteceram algumas coisas daquelas que só podem acontecer pra irritar um. Semana corrida, cheio de coisa pra resolver, e as coisas resolvem acontecer bizonhamente, aí não tem sacristão que resista a escrever uma lista com...

As 7 coisas que me tiraram do sério essa semana... e a semana amanhã tá chegando no meio ainda.

Esta lista é que nem os 10 mandamentos, e os 12 homens sem um destino - não tem ordem de importância, tudo é mortalmente capital, importante e, acima de tudo, irritante. E acontece sempre. Agora se acontecem os 10 numa semana, pode entrar no mercado se jogando em pilha de panetone em promoção (sim, ainda tem panetone em promoção num mercado classe X-Y-Z perto do meu trabalho...), socar 10 no ponto de ônibus, que D'us perdoa.


1. Receber trouxinha de dinheiro em caixa de farmácia e super-mercado.

Você já tá terminando de empacotar as coisas no caixa do mercado (porque se tiver um empacotador, ele acha que você é um polvo, e calmamente coloca cada item num saquinho, pra não misturar o sabonete com o pão de forma, e você tem que sair colocando saco dentro de saco, pra não andar pela rua que nem a Árvore da Lagoa com 28 saquinhos na mão - ah, saudades da saca Sendas...), paga com dinheiro, e vê lentamente a caixa pegando a notinha... depois as notas do troco... depois as moedas do troco... e, ao invés de te dar tudo de uma vez, ela faz uma trouxinha, com a nota fiscal por baixo, as notas de dinheiro por cima, e as moedas que nem a cereja desse sundae de papel imundo, como se você fosse fechar a mão e fazer um Apfelstrudel de moeda pra meter no bolso. Custa te dar as coisas separadas, porque a nota vai num lugar, a moeda em outro, e a notinha invariavelmente pro lixo?


2. Comprar passagem pela internet e receber duas vezes a confirmação da ida e nunca a da volta.

Eu sempre fui rato de internet, até que tomei um tombo do Submarino, que se tivesse acontecido esta semana certamente tava nessa lista, mas faz tempo. Eu fiz uma compra, nunca chegou, entrei no "Meus Pedidos" e vi que tava entregue num endereço em Santarém, no Pará. Ai liguei pra lá pra falar que tinham fraudado meu cadastro. O atendente perguntou se eu reconhecia a compra. "A compra sim, reconheço, mas meu endereço nunca foi esse". "Mas a compra foi o senhor que fez, senhor?", "Sim, eu fiz, mas meu endereço não é esse.", "O senhor não atualizou seu endereço pelo site ou pelo televendas, senhor?", "Meu amigo, como é que eu podia ter atualizado meu endereço se esse não é o meu endereço?", entrei num loop surreal, mandei à merda e desliguei. Prefiro dedicar a última gota de sanidade que sobrou em mim pra panfletar contra o Submarino - e se um dia eu for a Santarém vou matar um paraense, e ainda vou enfiar no c* dele meu headset da Nokia até a luzinha do Bluetooth sair do rabo dele e iluminar a rua que nem pirilampo. Desculpem a grosseria, mas fiquei mutxo putxo.

Enfim, resolvi passar o carnaval em Marrocos, e como a passagem vai sair de Barcelona pra Marrocos, quem voava a preços pagáveis por quem não ganha em euros é a Royal Air Maroc. Pára, respira fundo, pensa, repensa, lembra das viagens de Air India e China Eastern Airlines, em aviões da II Guerra, aeromoças desdentadas e um futum de matar um, fazer o quê, é vôo curto, tá barato, vamos lá. O site é bonitinho, porque quando é aqueles sites que parecem PowerPoint você nem entra. Comprei a passagem. Ida e volta. Pra mim e pra Vi. Deixo email de confirmação, porque é e-ticket (se for ticket normal, não posso comprar, tenho que comprar de lá, e vai que termina, tô justo de datas, vamos no e-ticket mesmo).

Dois dias depois chegam dois emails de confirmação. Os dois do mesmo trecho. Ou seja, pra Fez eu vou. Agora acho que vou ficar, literalmente, pra lá de Marrakesh, porque essa confirmação nunca chegou. Amanhã vou juntar meus cacos de francês e ligar pro Call Center da Royal Air Maroc. Se pro do Submarino foi o que foi, imagine o da Royal Air Maroc...


3. Garçon que consegue errar teu pedido de cabo a rabo.

Errar pedido é uma arte que alguns levam ao extremo. Referência aqui ao garçon do "sim" de dois posts atrás. Mas a menina da livraria hoje me espantou. Almoçar ali é todo um evento, mas hoje foi a cereja do meu sundae. Eu falei uma sopa e uma coca-cola, meu amigo pede um prato do dia e um mate, a menina se põe a anotar o que devia ser o conto perdido de Reinações de Narizinho do Monteiro Lobato, porque o pedido não podia ser. Ou então baixou uma Gasparetto ali. Meia hora depois ela me olha e "a salada é...", e eu "dele. Eu pedi a sopa". "Ah, verdade (parêntesis: "verdade" é ótimo), de abóbora, não?", "não, palmito", "ah, perfeito". Risca-risca-risca, borra-borra-borra, desiste, vira a página do bloquinho e faz o download de outro capítulo. Depois, pergunta "o suco?", "coca-light, com gelo e sem limão", "sem gelo?", "do jeito que vier". Sentiu que tô irritado... quando chega, chega uma salada pra mim. "Deve ser de outra mesa, a sopa não vem com salada".


4. Congonhas resolve entrar em manutenção de uma pista no dia em que você vai a São Paulo.

Já estou achando que a ANAC é a Agência Nacional para Apurrinhar o Carlos. É de enlouquecer qualquer um. Amanhã estou indo de TAM (um ponto), às 7 da manhã (dois pontos), pousando em Congonhas que vai estar com uma pista fechada (3 pontos), para uma reunião cedo no Butantã e outra às 5 da tarde em Barueri (4, 5, 6 pontos). Depois volto no vôo das 9 da noite (7 pontos), Congonhas deve estar parecendo uma cena da Paixão de Cristo do Mel Gibson (8 pontos), pra chegar em casa e ainda ter uma outra reunião na quinta às 8 e meia da manhã no Rio. Na boa, ninguém merece isso. Conseguiu superar minha estada em Brasília no dia da posse.


5. Ir a um show dos Mutantes e se ver de repente no meio de uma reunião de condomínio do seu prédio, ou numa padaria em São Pedro d'Aldeia.

Show dos Mutantes foi um equívoco. Primeiro que eu já devia estar meio da pá virada (sim, este é um post garoto enxaqueca, ainda acho que vou deletar). Depois que eu achei que o Tapa-MAM (o Vivo Rio) era maior, por fora parece ser enorme, por dentro você vê que ele é só do tamanho necessário pra tapar o MAM e estragar a onda do TIM Festival, do Fashion Rio, etc. Mas o lugar é pequeno, tem um segundo andar que deixa uma impressão de teto baixo em quem está na pista, meio que fica esquisito. Aí você olha em volta pra ver a onda dos malucos.... pô, tô sempre em Mauá, sou filho de bicho-grila, sou largado, acho que sei mais ou menos o que esperar das pessoas que vão no show do Mutantes, mas vi duas galeras que eu não esperava. De um lado, pessoas que em seu tempo deviam curtir Mutantes, mas que ao longo do tempo viraram professores do Ibeu, gerentes do Banerj, gente que você vê comprando tapiruê (tupperware) na Casa e Video, sei lá, gente muito normal demais... será que só meus pais ficaram na maluquice???? Do outro lado, aquela garotada que depois que adotou o visual sujinho com barba porque ouço Los Hermanos não uso shampoo e pulo que nem um doido, acha que é dos anos 60. Impressionante... esse povo então, fico doido com isso. Hoje você vê esses Los Hermanos cover em shows dos próprios, do Cidade Negra, e dos Mutantes, e nenhum desses conjuntos tem a ver um com o outro. Acho que esse visual, antigamente restrito à galera do Serviço Social, é passaporte pro mundo cabeça. Eu tava de jeans, tênis estropiado e camiseta Hering, me senti de terno. E limpo, me senti muito limpo. Tava até sentindo o cheiro do meu shampoo de 4 reais o tubo, luxo e asseio desnecessário. E aquela gente pulando, suando, gritando, caindo por cima... aquilo foi me irritando, irritando.. em boa hora veio um tsunami de marola e eu me acalmei.

Eu tenho 3 discos dos Mutantes, consegui conhecer só umas 3 músicas de um show de mais de 15. Impressionante. Passei uns 45 minutos do show querendo ir lá fora pra comer um milho. E show tem uma hora que, se não bateu legal, dá revertério. Fiquei de bode até o final... também, eu já tava insuportável - meu inferno astral começou 10 meses antes do meu aniversário, pode ser isso... só animei depois, porque meti 3 Negronis pra dentro e aí once I was lost, but then I was found...


6. Sua Net de repente congelar a imagem e aparecer um quadrinho amarelo "sinal não localizado. Por favor, tente reconectar mais tarde, caso não consiga entre em contato com a central de atendimento".

Esse é de arrepiar até cabelo detrás do joelho. Você está com a sua Net ligada, pelo menos está com ela em paisagem "mode", não tá nem vendo nada, só ouvindo o barulho pra não dormir enquanto trabalha, só parando pra ouvir aquelas propagandas surreais tipo "Você sabia que 3 colheres de Helmann's Light tem tantas calorias quanto apenas 1 colher de azeite? Helmann's Light... é light mesmo!" Não sei quem é que acha isso pouco, uma colher de azeite dá pra temperar umas 3 saladas, mas tudo bem. Paisagem, paisagem. De repente, um silêncio. Você olha pra televisão e vê a mensagem do além. E fica com cara de c*. Tanta coisa pra acontecer de repente, tipo eu receber a anunciação de um anjo, incorporar um Borges e fazer o post do século pra acordar um mês depois vestido de cachorro numa ilha em Mangaratiba, mas não. Comigo a Net desintegra. Sim, porque se eu não mexi, não fiz nada, como é que o "sinal não foi localizado" ? Eles é que perderam a porra do sinal, não fui eu que não localizei o sinal!!! Combustão Espontânea do Sinal, isso sim.

Aí você respira fundo, já conhece a rotina. É que nem quando dá pãm! no Windows (tela azul de travamento geral) - é desligar e ligar de novo, não se dê ao trabalho de entender por quê porque isso São Pedro explica na fila do céu. Desliga TV, desliga caixinha da Net, puxa cabo, liga de novo, e nada. Liga pro Call Center, e não aceita chamada de celular. Vai no quarto, liga do fixo sem fio, não tem bateria. Ligo do bat-fone (tenho um ericofon na sala, a fio, original de 1950, ah, desse funciona. Aí você ouve uma voz de moça educada dizendo "nossa central está com sua capacidade de atendimento lotada, a previsão de atendimento é em..." entra outra voz já meio sem educação "cinco", volta a mocinha educada "minutos....". Aí disco um 0, caio no menu anterior, e vejo que discando 5 eu ouço localidades com problemas. Disquei, e ouço (eram 21hs) que (entra a vozinha da moça educada) "assinantes do bairro...." entra a prima má da mocinha "Penha", volta a mocinha "a previsão de retorno é às 22:30hs... no bairro..." volta a prima "Penha Circular", outra vez a prima legal "a previsão de retorno é às 23hs" e por aí vai. Os bairros são perto um do outro, e nada de Ipanema falhar. Desisti. Botei um DVD e fiquei ouvindo paisagem de filme.

Hoje chego em casa às 20hs, e tá lá o aviso amarelo. Aí é foda. Resolvi repetir o desliga e liga desde a tomada da parede. Aí funcionou.


7. As pequenas verdades da vida...

  • Não é possível colocar uma coisa de volta numa caixa e ficar igual ao que estava. Também não dá pra você abrir correspondência serrilhada sem destruir exatamente a parte da conta que você quer ler, preservando uma folha inútil de mala direta ou de orientações inúteis absolutamente intacta.

  • Canetas somem, e a cola do post-it dura o tempo em que você ainda lembra do que escreveu. Assim que você esquecer, ela acaba, e o papel cai atrás da sua mesa.

  • Haverá sempre um cubo de gelo que vai cair no chão quando você tirar da bandeja. E ele vai escorregar pra debaixo da geladeira..

  • Todos os interfones do prédio e do prédio ao lado dão sempre pro mesmo prisma de ventilação, e têm o mesmo som do seu prédio. E algum dos dois porteiros vai sempre ter que ligar pra um dos 11 apartamentos em volta de você no meio da madrugada.

  • Na sua frente no supermercado sempre haverá a pessoa mais atrapalhada, calma e desprovida de senso de urgência que já caminhou no planeta... e que vai se embananar na hora de recolher a trouxinha de dinheiro do troco.

  • Apesar de todo mundo concordar que não tem nenhuma razão praquilo existir, os filmes em DVD e no cinema vão continuar com aquele aviso do FBI mesmo fora dos EUA, as pessoas vão sempre parar o carro mal na garagem mesmo que morem ali 2.000 anos, e sempre haverá um tipo de conta que você precisará ir ao banco pra pagar.. como o meu IPTU, que vence amanhã, e eu passo a porra do dia todo em SP.


    Hoje eu tô da moléstia...

    :: Inocente 9:53 PM [+] ::
    ...

  • Fala que eu te escuto...


    :: 2/2/2007 ::
    O macaco, a macaca, o pôr do sol, o garçon do sim, o tempo imprevisível e a centopéia, ó centopéia...

    Eu sempre acabo querendo ser mais frequente aqui, mas não consigo. Coisas acontecem todos os dias, mas como eu sou prolixo pra chuchu, acho que nada tem o potencial "literário" pra render um post, ou então que eu vou encher o meu saco e o de todo mundo postando... até que acontece outra que você tem que compartilhar... aliás, nos últimos dois dias foi um festival...

    Tive que passar os dois últimos dias em Brasília... trabalho... cliente importante e bem legal, mas aquilo é o faroeste caboclo. Enfim, fazer o que, entuba e vai. Vai de Gol, que TAM é um inferno, eu consegui estar reservado (e obviamente perder) todos os vôos da TAM nos últimos meses, daqueles de quebra-quebra em aeroporto e tudo. Aliás, consegui sair no jornal em dois quebra-quebras diferentes no mesmo dia - na ida (atrasada) pra Minas, ainda no Galeão, e na volta, 11 da noite, mais atrasado ainda e "sem previsão, senhor" em Confins (nome perfeito praquele c* de mundo).

    Enfim, acordei, tomei banho, entuchei uma camisa social num compartimento da minha mochila que eu nem sabia que tinha (minha mochila tem até quarto do pânico, se alguém vier me sequestrar eu posso passar 3 dias ali dentro com ar, água, energia elétrica e um banquinho caipira), e pego o carro. Ir de carro pro aeroporto pra uma viagem de 2 dias é mais barato do que taxi, e a única forma de garantir que 3 pessoas vão conseguir pegar o vôo das 7:30 - é ir pra porta da casa deles às 6:30 e buzinar até acordar o padre e o leiteiro.

    Peguei o carro, um zumbi de tão grogue, e ligo o rádio. Às seis e pouco da manhã, as rádios ainda não são "as rádios", não começaram a programação normal. Aqueles programas de "naftalina", good times e etc, geralmente começam as 7, então 6:30 é terra de Marlboro no seu dial. Tirando a Oi FM, tudo coisa esquisita. E botei na Transamérica (acho). E o locutor tava encerrando um programa que devia ser de auto-ajuda, e ia contar um conto do Paulo Coelho... que vou tentar, tentar, mas não vou conseguir, escrever rapidinho a seguir...

    "Um dia, o macaco estava com a macaca no galho, vendo o pôr do sol. Aí, a macaca pergunta ao macaco..."

    Pausa. Acho engraçadíssimo esses contos que tem umas frases ou situações completamente surreais, tipo uma macaca e um macaco vendo o pôr do sol, trepados num galho, super jipe-jipe-nheco-nheco-no-coqueiro, e de repente a macaca pergunta "AO" macaco. Não pergunta pro macaco, mas pergunta "AO" macaco. Acho uma coisa muito fina, mais fina que palito Gina... sigamos...

    "A macaca pergunta AO macaco: Macaco, por que o céu muda de cor no pôr do sol?

    No que o macaco retruca (pausa rápida: adoro "o macaco retruca" este conto é cheio de coisas assim. É o estilo Paulo Coelho. Situações imbecis, que não dizem nada, mas que retrucam, se deparam, me mim comigo, te ti contigo, um delírio da mesóclise...) "macaca, pare de buscar razão para tudo... o céu muda de cor simplesmente porque muda... não perca seu tempo perguntando essas coisas, simplesmente aprecie a beleza que a Natureza nos oferece...."

    Poderia ter acabado aí, e seria uma moral imbecil e pronto. Digna do Paulo Coelho. Mas ele é soberbo... quer ser um La Fontaine do terceiro milênio, e continua o conto, pra desespero da macaca e minha êxtase no volante no céu lusco-fusco de um dia chuvoso as seis da manhã.

    "A macaca, indignada, responde ao macaco - Macaco, deixe de ser primitivo (note a picardia do Paulo Coelho - macaco, deixe de ser primitivo.. esse homem merece o fardão...). Tudo tem uma razão, seja lógico e veja que deve haver uma explicação para tudo!!"

    Aí é que vem a parte mais surreal. O macaco olha para baixo, e vê que está passando uma centopéia. Acho centopéia um dos bichos mais carismático do mundo das fábulas. O macaco vira pra centopéia e pergunta.

    "Centopéia, ó centopéia (sic), como é que você consegue andar com tanta beleza e harmonia com tantas patas?"

    Beleza e harmonia no andar da centopéia eu já tava às gargalhadas, devia ser o único ser rinte do Rio a essa hora.

    "Ah, macaco, é fácil.. primeiro, eu movo as patas da frente, e depois... não... não, espera... não, não é isso. Primeiro eu inflexiono os músculos de trás, em seguida... não, também não. Para conseguir andar, eu primeiro movo o lado direito, e em seguida.. não, também não..."

    E a centopéia se enrolou toda, tropeçava, não conseguia explicar como conseguia andar com tantas patas. No que o macaco, triunfante, volta à macaca e diz "Está vendo, macaca? Algumas coisas não podem ser explicadas. Elas simplesmente são..."

    Segundo momento para acabar de forma imbecilóide uma história que só pode ser caricata e surreal. Mas não. Ele continua. Quando você pensa que a macaca fez aquela cara de Marlene no final de piada em Zorra Total (fuó, fuó, fuó, fuóóóóó...), segue o locutor.

    "E a centopéia responde: e eu, macaco, como faço agora que não consigo mais andar???"

    Me borrei de rir. Quando a primeira passageira entrou no carro, não me aguentei, tava às gargalhadas... tive que contar pra ela, foi hilário. Deu seis e meia, começou o programa de flashback.

    Embarcamos, taxiamos, atrasamos, chegamos, fomos ao cliente, yadda-yadda-yadda, fomos jantar. O cliente sugere um restaurante árabe. Estou indo pro Marrocos em duas semanas, vamos lá fazer um boot camp. Fomos.

    Chegamos lá, olhei o cardápio, não como carne vermelha, mas sempre tem falafel e eu adoro falafel. Folheia cardápio, folheia cardápio, e nada de achar faláfel. Não é possível. Tem humus, pega uma bola e frita, não acredito. Não tinha. Chamei o garçon, que já tinha se embananado mortalmente no pedido das bebidas - sabe quando você está já com a quarta pessoa da mesa pedindo uma coisa, ele vira pra primeira pessoa que pediu um guaraná e aponta a caneta e repete lentamente "uma coca-cola normal com gelo e limão, certo?". Pegamos o garçon do "sim"... aquele que não sabe o que está falando, mas é incapaz de dizer "não".

    Perguntei pra ele "vem cá, você tem falafel?"

    Longa pausa. Deu pra centopéia reaprender a andar, subir na árvore e dar uma coça na macaca. O garçon volta, e, incapaz de dizer não, "retruca": "senhor, se está no cardápio, nós temos. Temos tudo o que tem no cardápio". E eu respondo "é porque vocês têm tudo que dá pra fazer com grão de bico, mas não tem falafel", "senhor, do cardápio fazemos tudo, se está ali..." nessa reticência ele chamou um outro, eu pergunto "tem falafel", o outro "não" e vai embora. Eles trabalham em duplinha, esse último era o garçon do "não".

    E o bicho se enrola todo, a noite toda. Mas não diz um não. Na hora do cafézinho, trazem os cafés com três pratinhos: um cheio de sachês de açúcar e adoçante, outro com aquela casquinha de laranja com açúcar, e outro com uns carocinhos. Celeuma e perturbação na mesa, o que seriam os carocinhos, eu botei cinco reais que era caroço de laranja (ah, vai saber), quando uma amiga fala "é cardamomo"... whodahell... chamamos um garçon, veio o do "sim", e perguntamos, "O que é isso?", ele fica olhando, a Márcia fala "é cardamomo?", ele "sim, é cardamomisson (sic)"... ela segue "isso é pra comer junto com o café?", e ele "sim, pode-se comer sim...", ela "com caroço, ou tira o caroço?", ele "sim, pode ser... pode ser com o caroço sim..." ela "dentro do café?", ele "sim, pode ser também...."

    Surreal... se "pode-se comer sim", então pode-se não comer, é pra fazer o quê com aquilo, diabo? "com caroço ou sem caroço", e ele "sim, pode ser com caroço..." então deve ser sem o caroço? Por que não diz? Várias piadinhas previsíveis sobre como ele poderia ser um político, já que não diz nada e já está em Brasília mesmo, e fim da história...

    Dia seguinte, a mesma amiga vai pra recepção do hotel com uma blusa, mas sem casaco, e apesar do calor do cerrado que fazia na noite anterior, amanheceu cinzento e frio. Ela pergunta na recepção "oi, por favor, será que durante o dia vai esquentar, vocês sabem a previsão do tempo?"

    O recepcionista responde "senhora, a previsão é imprevisível (sic)... pode chover, pode fazer sol, pode esquentar, pode ficar como está, pode chover..." Carai.. o cara devia ser irmão do garçon do "sim". Eu já tava rolando no chão.

    E o pior é que o cara acertou. No mesmo dia começou frio, depois fez sol, depois choveu uma tempestade, depois ficou tempo bunda cinza como estava de manhã.

    Realmente Brasília é imprevisível.

    Obrigado, Paulo Coelho. Eu sei que foi você que me deu estes dois dias maravilhosos, e que me ensinou a não tentar explicar essas situações, macaca, ó macaca, e simplesmente apreciar a desarmonia dessa gente que se está no cardápio fazemos senhor, que pode ser com casca, que pode botar no café, que pode chover, que pode fazer sol, que pode ficar como está... sem reclamar, tentar entender ou argumentar...

    E força, centopéia! Se embolar aí, te recomendo um Shiatsu de quebrar os ossos na Praça da Paz.


    :: Inocente 12:24 AM [+] ::
    ...

    Fala que eu te escuto...


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